Painel da tarde do primeiro dia da Naturaltech 2026 reuniu varejistas e empresa de inteligência de mercado para discutir como o GLP-1 e as canetas emagrecedoras estão alterando o comportamento de compra e o que ainda não dá para medir.
Saladas prontas crescendo quase 40%, ovos em alta de dois dígitos em volume, açúcar e biscoitos perdendo espaço nas prateleiras. Esses números, apresentados por Marcel Hiroi, gerente comercial nacional de FLV do Sam’s Club Brasil, não estão desconectados entre si. Para os painelistas do evento Naturaltech 2026, eles fazem parte de uma reconfiguração silenciosa do carrinho de compras brasileiro — reconfiguração que a expansão dos medicamentos GLP-1 ajuda a explicar, mas não explica sozinha.
O painel “Efeito GLP-1: o impacto do crescente uso das canetas emagrecedoras no jeito de consumir os alimentos” reuniu Hiroi com Priscilla Ariani, diretora de marketing da Scantec, e Fernanda Dalben, diretora de marketing da rede Dalben Supermercados, sob mediação de Valeska Ciré, head de portifólio da Bio Brazil Fair e da Naturaltech e gerente nacional da IFPA.
O Brasil ainda está nos primeiros capítulos desse movimento.
Segundo Priscilla Ariani, a Scantec consegue identificar impacto mensurável no consumo de alimentos associado ao GLP-1 apenas a partir do quarto trimestre de 2024. “Ainda é marginal, mas já é estatisticamente relevante”, afirmou. A empresa processa 15 bilhões de tickets por ano e está conectada a 470 das 500 maiores redes varejistas do país.
Um dado chamou atenção no painel: o sinal não vem apenas do mercado formal. Segundo Ariani, o crescimento das vendas de seringas de insulina — utilizadas no circuito informal de aplicação, incluindo clínicas de estética — foi “muito significativo” e, quando combinado com os dados de Ozempic e Mounjaro, reforça a leitura de que o número de usuários efetivos de GLP-1 é maior do que o registrado pelos canais oficiais. “Os medicamentos formais cresceram 90% no último trimestre em relação ao período anterior”, disse ela.
A tese central do painel foi de que isolar o GLP-1 como variável explicatória única é um erro metodológico e estratégico. “A gente nunca navega num momento onde tem só uma variável”, argumentou Ariani. O crescimento de saladas prontas, por exemplo, responde simultaneamente a saudabilidade e praticidade — dois vetores que o GLP-1 não criou, apenas intensificou.
Fernanda Dalben reforçou essa leitura ao descrever os movimentos já em curso na rede: cervejas sem álcool e low calorie saltaram de um módulo e meio para quatro módulos de gôndola; vinhos sem álcool crescem “absurdamente”; biscoitos e outros itens de indulgência perdem espaço. Mas a decisão, segundo ela, não foi pautada exclusivamente pelo GLP-1. “A gente vem redefinindo espaços, criando novas categorias. Isso começa no consumidor.”
Para Hiroi, a mesma lógica vale para proteínas. No Sam’s Club, todos os itens da categoria crescem em duplo dígito. Frango em cortes prontos e IQF registram alta expressiva; ovos deflacionaram monetariamente, mas crescem em volume — sinal, segundo ele, de uma compra motivada por nutrição, não por preço.
O mecanismo pelo qual o GLP-1 afeta o consumo tem duas camadas. A primeira é fisiológica: o medicamento reduz o apetite e a tolerância a alimentos ultraprocessados e muito calóricos. Segundo dados citados por Ariani a partir de estudos americanos, categorias como salgadinhos, bolos, biscoitos e refrigerantes diet registraram quedas de 9% a 11% nos Estados Unidos entre usuários do medicamento.
A segunda camada é comportamental e mais difusa.
Quem usa GLP-1 passa, em geral, por acompanhamento médico que recomenda proteína, fibra, probióticos e sono regulado. Dalben citou um estudo da Equívia — descrita como o equivalente da Scantec para o setor farmacêutico — que mapeou as categorias mais consumidas junto ao GLP-1: probióticos em primeiro lugar, seguidos de suplementos para queda de cabelo, fibras e proteínas. “O quanto tudo isso pode refletir na gôndola ou nas áreas produtivas”, questionou ela.
Ariani alertou, porém, contra a transposição direta do modelo americano para o Brasil. “O brasileiro não se alimenta como um americano.” Nos canais supermercadistas brasileiros, 40% a 50% das vendas já são de perecíveis e alimentos frescos — um ponto de partida muito diferente do padrão norte-americano, com taxas de obesidade e consumo calórico per capita distintos.
Para o varejo, o que muda de imediato é o critério de alocação de espaço. Dalben descreveu o princípio operacional da rede Dalben como “fair share”: o espaço na gôndola é proporcional à venda real, não a contratos comerciais. “Quem define o espaço é o consumidor.” A rede já criou uma categoria chamada “longevidade”, voltada ao público 50+, e estuda uma seção orientada ao perfil do usuário de GLP-1, organizada por benefício e não por ingrediente.