A fase mais vitoriosa da carreira de Bruno Fratus — três vice-campeonatos mundiais, quatro medalhas mundiais, sete medalhas pan-americanas e a medalha olímpica — não foi a em que ele mais treinou. Foi exatamente o oposto.
“O descanso, o sono, a boa alimentação e o bom gerenciamento de estresse são muito negligenciados”, disse o nadador durante painel na Naturaltech 2026, em São Paulo. “Quando as pessoas perguntam quantas horas eu nadava, essa era a parte menos importante de toda a preparação.”
O painel “Mente, Corpo e Performance: o que o esporte olímpico ensina sobre bem-estar de verdade” reuniu Fratus com a psicóloga Carla di Pierro, especialista em saúde mental de atletas de alto rendimento pelo Comitê Olímpico do Brasil, com mediação de Marina Camargo, fundadora da Mushin e apresentadora do Alpha Viver Bem.
O equívoco sobre o atleta olímpico
Segundo Fratus, existe um equívoco estrutural na forma como o público geral interpreta a preparação do atleta de elite. “Um erro de conceito muito comum é achar que o atleta olímpico treina muito mais que todo mundo em volume”, afirmou.
O nadador dividiu sua trajetória em duas fases: uma de construção, entre os 19 e os 24 anos, marcada por alto volume de treino; e uma de refinamento, em que as conquistas mais expressivas vieram de “refinar a execução da prova e alinhar o jogo mental ao condicionamento físico.”
Foi nessa segunda fase que os maiores resultados apareceram — não pela quantidade de horas na água, mas pela qualidade do que acontecia fora dela.
Quando o atleta entrou em frangalhos
A mudança de abordagem não foi uma escolha estratégica. Foi uma necessidade.
Fratus descreveu um histórico de negação em relação à saúde mental — a crença de que “a resposta era treinar mais, sentir mais dor” — que chegou a um ponto de ruptura. “Minha saúde mental, meu bem-estar, o ser humano por trás do atleta já estava começando a entrar em frangalhos. Eu já sofria de uma ansiedade muito grande, tinha crises depressivas que ainda não conseguia identificar em mim mesmo.”
Foi nesse momento que Carla di Pierro passou a integrar sua preparação. O trabalho conjunto envolveu metacognição — aprender a se conhecer melhor — como caminho para destravar performance.
A lógica da periodização — e por que o público ignora
Di Pierro introduziu o conceito de periodização como a lógica central que o público não especialista tende a ignorar. “Existe descanso, existe a meta-alvo — não dá para performar todos os dias”, disse a psicóloga.
Ela apontou um paradoxo observado em sua prática clínica: “Às vezes é mais difícil trabalhar com atleta amador do que com profissional, porque o profissional pede o descanso.” O atleta de alto rendimento entende que uma competição intermediária não exigirá seu melhor resultado — porque ela é apenas uma etapa dentro de um ciclo maior. “Quem quer render todos os dias não rende no momento que é importante.”
Tóquio mudou o esporte — e pode mudar o mercado
Di Pierro também mapeou uma mudança cultural no esporte de elite a partir dos Jogos de Tóquio. Casos públicos como os de Simone Biles e Ítalo Ferreira — atletas que expuseram crises de saúde mental em momento de alta visibilidade — ajudaram a deslocar um estigma histórico.
“A gente viu que atleta não é herói, que eles também quebram — e que se recuperam e têm melhores performances depois.” Hoje, afirmou, tanto atletas quanto treinadores buscam ativamente suporte psicológico, algo que até poucos anos atrás seria lido como fraqueza dentro do sistema esportivo.
O que isso significa para o mercado de wellness
Para o mercado de wellness e performance, o argumento apresentado no painel tem implicações diretas na forma como produtos, metodologias e protocolos são comunicados e estruturados.
A narrativa dominante de “mais esforço, mais resultado” contraria o que os próprios atletas de elite aplicam na prática. Programas que não incorporam periodização, recuperação ativa e trabalho psicológico estruturado operam com um modelo que o esporte profissional já abandonou.
Fratus encerrou sua fala situando o esporte como veículo para algo maior do que a medalha: “Transformei os valores olímpicos na minha missão de vida.”
A pergunta que ficou no ar — e que o mercado de bem-estar ainda não respondeu de forma consistente — é quais valores, exatamente, estão sendo importados do esporte de elite para o cotidiano de quem nunca vai competir.
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