Anvisa, indústria e especialistas debatem rastreabilidade, qualidade e novos marcos regulatórios no painel da Naturaltech 2026
A indústria brasileira de suplementos alimentares deixou de ser um nicho voltado à performance esportiva e passou a ocupar prateleiras em lares de todo o país — e a regulação ainda corre para alcançar esse ritmo. Foi esse o diagnóstico central do painel “O Futuro da Indústria de Suplementação”, realizado durante a Naturaltech 2026, que reuniu a diretoria da Anvisa, representantes da Brasnutri e executivos de grandes grupos do setor.
Segundo Priscila Menino, advogada sanitarista especializada em regulação e qualidade da indústria farmacêutica, o Brasil hoje ocupa a terceira posição no ranking mundial de consumo de suplementos alimentares. O dado situa o país em um patamar de relevância global que impõe responsabilidades regulatórias proporcionais à sua escala.
O mercado brasileiro de suplementação cresceu em amplitude e perfil de consumidor nas últimas décadas. Segundo Daniela Cerqueira, diretora da Anvisa, o segmento migrou de um foco predominantemente esportivo para abarcar temas como longevidade, cognição, saúde da mulher e saúde intestinal. Essa expansão temática reflete uma mudança de comportamento da população — e não apenas das marcas.
Mariane Morelli, fundadora e CEO do Grupo Suplei — que detém as marcas Max Titanium, Probiótica, Dr. Peanut e Snack Dad — afirmou que o setor acumula 20 anos de construção de mercado e que o crescimento precisa ocorrer de forma responsável, com atenção à segurança do consumidor. Aline Goettert, diretora executiva da Brasnutri, associação que representa cerca de 70% do faturamento do setor e mais de 60 marcas, reforçou que a entidade vem mantendo interlocução ativa com a Anvisa justamente para orientar essa transição.
Expansão do mercado de suplementos
O painel convergiu em torno de uma tese central: a expansão do mercado exige atualização regulatória proporcional, e esse processo já está em curso — ainda que em fase de adaptação. Segundo Daniela Cerqueira, a Anvisa vem acompanhando as mudanças tanto em relação a outras autoridades sanitárias internacionais quanto na tentativa de regular adequadamente um mercado em expansão acelerada.
A norma mais recente do órgão sobre o tema é a Resolução 843 de 2024, atualmente em fase de adaptação pela indústria. De acordo com Cerqueira, a principal mudança introduzida pela resolução foi a migração da lógica de regularização dos suplementos alimentares — antes centrada nas vigilâncias sanitárias locais.
Felipe Bragança, CEO do Grupo BRG — que opera as marcas Integral Médica, Darkness e Nutrify — e conselheiro da Brasnutri, afirmou que atua no mercado há 25 anos e que caminha “lado a lado com a Anvisa” no trabalho regulatório. A fala sinaliza uma postura de colaboração institucional entre indústria e órgão fiscalizador que foi recorrente ao longo do painel.
A lógica apresentada pelos participantes conecta qualidade regulatória à confiança do consumidor — e, por extensão, à sustentabilidade do próprio mercado. Segundo Marcelo Kim, mediador do painel e representante do varejo com quase 35 anos de atuação, o debate no setor deixou de girar exclusivamente em torno de performance para incorporar questões de saúde pública, rastreabilidade e qualidade de produto. Kim mencionou ainda a “polêmica da falta do EI” como um dos pontos regulatórios em discussão no segmento — referência ao Elemento de Identificação
Priscila Menino, que se define como “advocêutica” pela interface constante entre direito e conceitos técnico-científicos, destacou a relevância das reflexões sobre regulação em um país de terceiro maior consumidor mundial. Sua atuação concentra-se em empresas reguladas pelo Sistema Nacional de Vigilância Sanitária, e seu doutorado tem ênfase em precificação de medicamentos — trajetória que situa sua análise na intersecção entre direito sanitário e economia do setor.
Para o mercado, o painel sinaliza que o ambiente regulatório brasileiro está em movimento — e que empresas com maior capacidade de adaptação às novas exigências tendem a sair em vantagem competitiva. A Resolução 843/2024 da Anvisa representa o marco mais recente desse reordenamento, e sua fase de adaptação define, na prática, o ritmo em que fabricantes, importadores e varejistas precisarão operar.
A presença simultânea de Anvisa, associação setorial, executivos de grandes grupos e especialistas jurídicos no mesmo painel é, por si, indicativa de um setor que reconhece a regulação não como obstáculo, mas como variável estratégica.
*conteúdo em colaboração com grupo Portal Publicidade